Estudo identifica proteína que afeta o equilíbrio intestinal

Data:

Camundongos que não produziam molécula apresentavam defesas fortalecidas, relatam pesquisadores em artigo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences

Por Ricardo Muniz | Agência FAPESP

Estudo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) revela como a presença de uma proteína específica – chamada IL-22BP – afeta o equilíbrio intestinal e regula a resposta do corpo a infecções bacterianas.

“Descobrimos que camundongos que não produzem essa proteína estão mais protegidos contra infecções intestinais por bactérias como Clostridioides difficile e Citrobacter rodentium”, conta à Agência FAPESP Marco Vinolo, professor do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (IB-Unicamp), onde é responsável pelo Laboratório de Imunoinflamação.

Isso acontece porque a IL-22BP (acrônimo em inglês para proteína de ligação à citocina IL-22) reduz a quantidade disponível de interleucina 22 – uma proteína produzida por células do sistema imunológico que ajuda a manter a barreira protetora do intestino, fortalece as células que revestem suas paredes e está envolvida na produção de substâncias antimicrobianas.

“Nossa explicação para esse resultado foi que, na ausência da IL-22BP, a interleucina 22 atua de forma mais eficaz, fortalecendo as defesas intestinais antes mesmo de a infecção começar”, detalha Vinolo, que teve apoio da FAPESP em estudo sobre mecanismos moleculares envolvidos na microbiota durante a inflamação.

No artigo recém-publicado, os pesquisadores relatam que a composição de bactérias encontradas no trato gastrointestinal dos camundongos que não tinham a proteína IL-22BP era diferente. Ao transferir as bactérias intestinais desses animais para aqueles com a produção normal da IL-22BP, observaram o efeito de proteção contra infecções, sugerindo que a ausência da proteína de ligação resulta em uma modulação benéfica da microbiota intestinal.

“Vimos que essa resistência à infecção estava relacionada ao aumento na produção de ácidos graxos de cadeia curta, moléculas liberadas pela fermentação de fibras alimentares por bactérias intestinais e que possuem efeitos benéficos à saúde do intestino, incluindo a promoção de um ambiente anti-inflamatório e o fortalecimento da barreira intestinal”, detalha José Luís Fachi, pós-doutorando na Washington University School of Medicine (Estados Unidos) e primeiro autor do artigo.

O pesquisador teve apoio da Fundação durante o doutorado, quando estudou a interação entre as bactérias intestinais e a colonização por C. difficile, bacilo resistente a diversos agentes antimicrobianos. Os ácidos graxos de cadeia curta são produtos do metabolismo bacteriano durante o processo de fermentação de fibras alimentares e exercem um efeito protetor frente às infecções intestinais, tal como a causada pela bactéria C. difficile.

Vinolo, que também foi orientador de Fachi no doutorado, destaca que a ausência de IL-22BP modifica a composição e a funcionalidade da microbiota intestinal “e resulta em um perfil benéfico ao organismo, o que ressalta o papel da microbiota na regulação das respostas do organismo, assim como indica a possibilidade de atenuar ou prevenir infecções intestinais via inibição de IL-22BP”.

Novos caminhos

Com o achado, estudos futuros podem ser delineados para aprofundar o entendimento e a aplicação terapêutica da descoberta. “Primeiramente, é essencial investigar a eficácia de inibidores de IL-22BP em modelos animais e, eventualmente, em ensaios clínicos para tratar infecções intestinais graves”, pondera Fachi. Além disso, explorar como diferentes tipos e quantidades de fibras alimentares afetam a produção de ácidos graxos de cadeia curta. “A composição da microbiota na ausência de IL-22BP pode fornecer informações valiosas”, ressaltam os autores.

A modulação da microbiota intestinal pode beneficiar outras condições inflamatórias intestinais, como a doença de Crohn e a colite ulcerativa, além de infecções intestinais causadas por outros patógenos.

“Estudar como IL-22 interage com outras moléculas e células do sistema imunológico na ausência de IL-22BP ajudará a entender melhor sua função na imunidade intestinal. Esses estudos futuros têm o potencial de transformar nosso entendimento sobre o papel dessas proteínas na saúde intestinal e levar ao desenvolvimento de novas estratégias terapêuticas para prevenir e tratar infecções intestinais”, conclui Vinolo.

O estudo envolveu pesquisadores do Departamento de Genética, Evolução, Microbiologia e Imunologia do IB-Unicamp e do Departamento de Patologia e Imunologia da Washington University School of Medicine, nos Estados Unidos.

O artigo Deficiency of IL-22–binding protein enhances the ability of the gut microbiota to protect against enteric pathogens pode ser lido em: www.pnas.org/doi/10.1073/pnas.2321836121.

Legenda da imagem do destaque: C. difficile é uma bactéria que causa infecção intestinal, principalmente após o uso de antibióticos. Estima-se que afete quase meio milhão de pessoas nos Estados Unidos a cada ano (imagem: CDC)

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Compartilhe

Assine nossa Newsletter

Popular

Notícias
Relacionadas

WhatsApp deixa de funcionar em 25 modelos de celulares

Segundo a Meta, decisão procura melhorar a eficiência do...

Vídeo: Cerimônia inovadora abre os Jogos Olímpicos Paris 2024

As 205 delegações navegaram pelo rio Sena da Ponte...

Rodovia abre a fronteira e integra agricultura à pecuária

Asfalto da MS-270 entre Copo Sujo e Cabeceira do...

Safra de cana em MS bate recorde com 50,5 milhões de toneladas

Produção de açúcar chega a 2,1 milhão de toneladas...